Você já reparou que a maior perda financeira de uma organização raramente entra pelo portão? A cena se repete em praticamente todo diagnóstico de segurança: o gestor descreve a preocupação que tira seu sono — a invasão armada, o assalto ao caixa, o roubo de carga — e pede reforço de perímetro, mais efetivo, mais câmeras. Depois abrimos o histórico de perdas dos últimos doze meses. E, na maioria dos casos, nenhum daqueles eventos aparece ali.
O que aparece é um boleto adulterado. Um pagamento autorizado a um fornecedor que nunca existiu. Um colaborador que atendeu a um telefonema aparentemente rotineiro e entregou credenciais.
A perda entrou pela tela, não pelo portão.
Essa distância entre o que tememos e o que efetivamente nos atinge deixou de ser impressão de consultor. Ela agora tem lastro estatístico. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho de 2026, oferece o retrato mais completo já produzido dessa transição — e seus números cobram de nós uma revisão de método. Não pretendo esgotar aqui as 424 páginas da publicação. A proposta é extrair do conjunto de dados aquilo que altera, de forma concreta, a maneira como construímos matrizes de risco, priorizamos controles e desenhamos programas de proteção no Brasil de 2026.
Uma advertência antes dos números
São dados de registro policial, não de pesquisa de vitimização — medem o que acontece, o quanto a vítima denuncia e o quanto a instituição registra, três coisas ao mesmo tempo. Os dados de estelionato, além disso, foram sistematizados antes da Lei 15.397/2026, que devolveu ao crime o status de ação penal pública incondicionada — o que deve alterar a série a partir de 2026. Feita a ressalva, os dados podem falar.
Seção 1O Crime Não Desapareceu. Ele Mudou de Porta.
Em 2025, todos os indicadores de roubo caíram no Brasil. Não alguns. Todos.
| Modalidade | 2024 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Roubo de veículo | 126.358 | 104.491 | -20,6% |
| Roubo a transeunte | 338.510 | 260.464 | -23,4% |
| Roubo a estabelecimento comercial | 27.975 | 22.937 | -18,3% |
| Roubo a residência | 19.950 | 16.048 | -19,9% |
| Roubo de carga | 9.812 | 7.905 | -19,8% |
| Roubo a instituição financeira | 121 | 75 | -35,5% |
| Roubo total | 745.193 | 610.959 | -18,3% |
Fonte: FBSP, 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2026. Elaboração do autor.
Repare no roubo a instituição financeira: setenta e cinco ocorrências em todo o território nacional, ao longo de um ano inteiro. A modalidade que estruturou boa parte da doutrina brasileira de segurança patrimonial nos anos 1990 e 2000 tornou-se estatisticamente residual. O movimento acompanha a violência letal: 40.775 mortes violentas intencionais, queda de 8,2%, a menor taxa desde 2012.
Diante desse quadro, a conclusão intuitiva seria de que o risco diminuiu. É exatamente aí que a intuição falha. Quando uma ameaça descobre um caminho de custo operacional menor, risco de punição inferior e retorno superior, ela migra — como a água que encontra a fissura na parede em vez de derrubá-la.
258 golpes por hora
Em 2025, o Brasil registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato — taxa 20% superior à dos Estados Unidos no mesmo período, crescimento acumulado de 429,8% desde 2018. Nenhum indicador de segurança pública brasileira cresceu assim nesta década.
O golpe também deixou de ser artesanal. Com base em investigações das Polícias Civis de São Paulo e do Rio de Janeiro e da Polícia Federal, o Anuário documenta que Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho mantêm estruturas dedicadas a fraudes digitais, operadas como linha de negócio de baixo risco e alta rentabilidade em comparação ao tráfico de drogas — centrais de golpes com metas de produtividade, funcionando em modelo de call center. Não enfrentamos estelionatários dispersos, mas uma economia criminal integrada, com estrutura empresarial e capacidade de captura do sistema financeiro. O adversário deixou de ser oportunista e passou a ser metódico.
O funil que quase nunca fecha
Apenas 2,8% das ocorrências de estelionato registradas resultaram em abertura de processo judicial. Mais de 97% dos estelionatos comunicados às polícias brasileiras não chegam ao Judiciário.
Onde a punição não alcança, a prevenção deixa de ser camada complementar e passa a ser a única defesa que opera.
O que sobra é o que a organização construiu por conta própria: verificação de identidade, segregação de funções, dupla autorização para transações financeiras, protocolo de validação para alteração cadastral de fornecedor e pessoas treinadas para reconhecer engenharia social.
Seção 2O Celular Mudou de Mão Sem Que Percebêssemos
Roubo e furto costumam ser tratados como o mesmo problema. Os dados de 2025 mostram por que não são. O indicador agregado de roubo e furto de celulares somou 792.284 ocorrências, queda de 7,7% sobre 2024. Decomposto, porém, revela dois movimentos opostos: os roubos caíram 18,6%, enquanto os furtos subiram 0,9%. Hoje, seis em cada dez aparelhos subtraídos no Brasil resultam de furto e quatro de roubo.
Cada crime pede um controle diferente
O roubo pressupõe confronto e responde a dissuasão ostensiva: vigilância visível, iluminação, controle de acesso. O furto pressupõe oportunidade e ausência de percepção da vítima, e responde a detecção: análise comportamental, densidade de monitoramento, eliminação de pontos cegos.
Projetos de varejo, shopping center, transporte público e eventos concebidos sob a lógica do roubo tendem a render pouco contra o vetor que hoje predomina — o painel sofisticado num avião sem rota definida.
Há ainda um elo que costuma escapar do diagnóstico: o aparelho subtraído alimenta a fraude seguinte, com acesso a aplicativos bancários, contatos e credenciais. Pesquisa do FBSP com o Datafolha, de março de 2026, apurou que 78,8% da população teme ter o celular furtado ou roubado e 83,2% teme sofrer golpe pela internet. A população já ligou os dois fenômenos. Nossas matrizes de risco, em geral, ainda os tratam em capítulos separados — e essa separação custa caro.
Seção 3A Segurança Privada Ganhou um Estatuto. E o Contratante Ganhou um Risco.
A Lei 14.967/2024 estava em vigor desde setembro de 2024, mas foi a assinatura do decreto regulamentador, em 9 de junho de 2026, que finalmente destravou seu potencial. O setor soma hoje 588.420 vigilantes com vínculo ativo (+3% a.a.) e faturamento de R$ 50,5 bilhões — mas ainda menor que o efetivo de 2016, e crescendo comprimido por custos operacionais que subiram 6% no período.
O que mudou na prática
- A Polícia Federal aplicou 3.117 sanções em 2025 (+29,9%), somando R$ 10,4 milhões
- Das multas pagas, R$ 5,6 milhões couberam a instituições financeiras e R$ 4,6 milhões a empresas especializadas
- Os tomadores de serviço pagaram mais do que os próprios prestadores
- O Estatuto criou instrumentos que permitem à Polícia Federal responsabilizar quem contrata irregularmente
Verificar a regularidade do prestador — autorização de funcionamento, certificados de formação e reciclagem dos vigilantes, adequação do contrato às novas exigências — deixou de ser boa prática recomendável. Virou mitigação de um passivo administrativo mensurável, com valor, prazo e responsável. Organizações que mantêm postos de vigilância ou contratos de monitoramento sem verificação documental sistemática carregam hoje uma exposição que não está lançada em nenhuma matriz de risco.
O novo marco também trouxe o gerenciamento de riscos para dentro do perímetro regulado — o que exige metodologia documentada, na linha do que a ABNT NBR ISO 31000 já preconizava, separando quem opera com metodologia de quem opera apenas por experiência acumulada.
Seção 4Dois Números Sobre Quem Faz a Segurança
Falamos muito sobre proteger a organização. Falamos pouco sobre quem a protege. As mortes decorrentes de intervenção policial atingiram o maior patamar da série histórica — 6.602 vítimas em 2025, dezoito pessoas por dia, com desigualdade racial acentuada: pessoas negras morrem 3,5 vezes mais que brancas.
O número que diz mais sobre a rotina
O suicídio segue como principal causa de morte entre policiais civis e militares: 110 casos em 2025, com crescimento de 37,8% desde 2017. O perfil ocupacional conversa de perto com o da segurança privada: exposição prolongada ao estresse, jornada irregular, porte de arma, escala que corrói vínculos sociais.
Um programa de segurança que trata o efetivo apenas como recurso operacional está ignorando a principal causa de morte documentada dessa população.
Seção 5A Média Nacional Não Descreve Município Nenhum
Enquanto Amapá (42,5), Bahia (36,8) e Ceará (34,7) registram as maiores taxas de mortes violentas intencionais, Santa Catarina (7,6), São Paulo (7,8) e Distrito Federal (9,6) apresentam as menores. O Paraná ilustra bem por que o dado médio engana.
| Paraná | 2024 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Mortes violentas intencionais | 2.170 | 1.844 | -15,5% |
| Roubo total | 18.133 | 14.818 | -18,7% |
| Estelionato | 152.407 | 159.228 | +3,9% |
Fonte: FBSP, 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2026. Elaboração do autor.
O estado apresenta taxa de mortes violentas intencionais de 15,5 por 100 mil habitantes, bem abaixo da média nacional de 19,1. E, ao mesmo tempo, ocupa a terceira posição nacional em taxa de estelionato — atrás apenas de São Paulo e Distrito Federal. O retrato é claro: o risco paranaense é hoje predominantemente patrimonial não violento e digital. Um diagnóstico que abra falando em escalada da violência armada não encontra sustentação nos dados do estado.
A análise precisa descer ao nível estadual e municipal, ou descreverá um país que não é o do cliente.
Seção 6O Ambiente Externo Não Vai Resolver
Resta a pergunta que todo gestor faz: dá para contar com uma melhora estrutural do sistema público no curto prazo? As despesas com segurança pública somaram R$ 163,1 bilhões em 2025, mas o crescimento veio dos estados, enquanto União e municípios reduziram aportes — expansão sem coordenação federativa. No sistema prisional, o país se aproxima de um milhão de pessoas privadas de liberdade, com déficit de 281.213 vagas, enquanto as facções de base prisional mantêm centralidade nas dinâmicas criminais, inclusive nas fraudes que examinamos.
A resposta, portanto, é não. E é justamente por isso que os controles próprios de cada organização deixaram de ser complemento e passaram a ser o núcleo da proteção.
Seção 7Sete Deslocamentos Que os Dados Impõem
Se há uma conclusão que atravessa todo o Anuário, é que a doutrina brasileira de segurança patrimonial vem operando com um mapa desatualizado. Não um mapa errado — um mapa de um país que existiu. Sete deslocamentos decorrem diretamente das evidências examinadas.
1. Reponderar a matriz de risco. Se o crime patrimonial violento caiu entre 18% e 35% em todas as modalidades enquanto a fraude cresceu 429,8% em sete anos, matrizes que concentram o peso analítico no perímetro físico estão descrevendo o cenário ao contrário.
2. Tratar conformidade regulatória como risco financeiro. Com sanções da Polícia Federal em alta de 29,9% e responsabilização do contratante prevista no Estatuto, auditar a regularidade do prestador virou instrumento de mitigação de passivo — não formalidade de contrato.
3. Assumir o gerenciamento de riscos como atividade regulada. Ela entrou no perímetro da Lei 14.967/2024, e isso exige metodologia documentada.
4. Redesenhar controles para furto, não para roubo. Com seis em cada dez celulares subtraídos por furto, projetos de varejo, transporte e eventos precisam privilegiar detecção, em vez de dissuasão ostensiva contra confronto armado.
5. Incorporar saúde mental à gestão das equipes de segurança. Sendo o suicídio a principal causa de morte na população profissional analisada, ignorá-lo é deixar descoberto o risco de maior letalidade documentada.
6. Territorializar a análise. A diferença entre estados e municípios é tamanha que recomendações calibradas por média nacional chegam imprecisas ao cliente — o caso paranaense mostra bem o tamanho do desvio.
7. Priorizar a capacitação contra engenharia social. Com mais de 97% dos estelionatos sem resposta penal, a prevenção comportamental é o que efetivamente resta operando.
Nenhum desses deslocamentos significa abandonar a segurança física. O muro continua necessário. O que mudou é que ele deixou de ser suficiente, e a competência técnica em segurança no Brasil de 2026 passa pela capacidade de proteger a organização contra ameaças que não precisam transpor muro algum.
O Anuário entregou o diagnóstico. A tradução desse diagnóstico em controles proporcionais, documentados e aderentes à realidade de cada organização continua sendo trabalho nosso.
Sua matriz de risco ainda mira
no portão errado?
A Security & Training realiza diagnósticos técnicos de segurança patrimonial e digital, atualizados aos dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, para empresas que precisam recalibrar seus controles ao risco real de 2026.