Segunda-feira, oito da manhã. A diretoria de uma indústria convoca uma reunião de emergência: os furtos de produtos acabados cresceram pelo terceiro mês seguido. A solução aparece antes de o café esfriar — revista geral na saída de todos os turnos, mais dois postos de vigilância e câmeras novas no estacionamento.

Quem atua em segurança privada conhece bem essa cena. O problema surge e a resposta vem na forma de mais recursos: mais gente, mais barreira, mais equipamento. É uma reação compreensível. Durante décadas, foi exatamente isso que se esperou de quem cuidava da segurança.

Mas e se a pergunta estiver errada desde o início?

Neste artigo, apresento um modelo que venho desenvolvendo para explicar a evolução da nossa atividade: Do 3G ao 5G. Assim como a telefonia móvel, a segurança privada avança por gerações — e cada uma responde a uma pergunta diferente. Saber em que geração a sua organização está é o primeiro passo para decidir para onde ela precisa ir.

Seção 1O 3G: Proteger com Recursos

Com o que protegemos? Essa é a pergunta que a primeira geração responde, e ela responde muito bem.

A expressão guards, gates and guns — guardas, portões e armas — não é minha. Ela circula há décadas no meio da segurança, sobretudo nos Estados Unidos, como retrato da proteção tradicional e como ponto de partida de quem defende a sua superação. Em 2012, Dave Komendat, então diretor de segurança da Boeing, resumiu à revista Security que os primeiros tempos da segurança física foram focados em guns, guards and gates, mas a liderança de segurança evoluiu para uma abordagem mais holística. Em 2020, a Security Management, da ASIS International, foi direta: transformar a segurança de guns, guards and gates em ativo estratégico de negócio "não é um conceito novo".

O modelo Do 3G ao 5G parte exatamente daí. Ele não pretende substituir essa leitura, e sim completá-la, dando nome às etapas que vêm depois dos três Gs. No modelo, o 3G reúne vigilantes, barreiras físicas e eletrônicas (incluo aqui toda a tecnologia, da cancela à câmera com analítico de vídeo) e armamento, e corresponde ao nível operacional de maturidade.

O Security Executive Council propôs uma evolução diferente, Evolving from 3G to 5D, voltada às funções de proteção; o modelo aqui trata de gestão e governança.

E o 3G não perdeu importância. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país contava em março de 2026 com 588.420 vigilantes com vínculo ativo e 4.809 estabelecimentos do setor; dados da Fenavist apontam faturamento de R$ 50,5 bilhões em 2025. É uma atividade gigantesca, sustentada essencialmente por recursos de proteção.

588.420
vigilantes com vínculo ativo (mar/2026)
4.809
estabelecimentos do setor
R$ 50,5 bi
faturamento em 2025

Fontes: FBSP, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026; Fenavist.

O problema do 3G não é estar errado. É estar incompleto.

Os Estados Unidos passaram por essa encruzilhada antes de nós. Charles Sennewald conta, no prefácio de Effective Security Management, que nos anos 1970 o setor americano formava "técnicos de proteção altamente qualificados", mas permanecia distante dos princípios e das práticas da boa gestão. Lá, a virada começou há meio século, empurrada por associações profissionais, certificações e pela cobrança das próprias empresas.

No Brasil, o relógio andou em outro ritmo. A Lei nº 7.102/1983, que estruturou o setor, não previu a figura de quem pensa e gere a segurança. Foram necessários 41 anos para que a lei reconhecesse esse profissional, com o Estatuto da Segurança Privada, em 2024. O gestor existia — muitos de nós construímos a carreira nessa função. Faltava o reconhecimento formal e, com ele, a exigência de método.

Pense numa caixa de ferramentas completa. Martelo, serrote e trena são indispensáveis, mas nenhuma caixa de ferramentas constrói uma casa sozinha. É o projeto que diz onde cada ferramenta entra — e o que não precisa ser feito. O 3G entrega as ferramentas. Faltava o projeto.

Seção 2O 4G: Guidance, ou Proteger com Critério

Voltemos à indústria da abertura. Antes de implantar a revista geral, alguém fez uma pergunta incômoda: por onde, exatamente, os produtos estão saindo?

O caso da indústria

A revista custaria caro: filas em cada troca de turno, mais vigilantes na folha, desgaste com os empregados e um risco trabalhista nada desprezível. Uma análise de riscos — cruzando inventários, notas fiscais, registros de carregamento e imagens — mostrou que o problema não estava no bolso dos funcionários. Estava na expedição: cargas saíam com mais volumes do que constava nos documentos. Era fraude, não furto miúdo. A revista geral teria custado mais e deixado o verdadeiro problema intacto.

Esse é o quarto G: Guidance, a gestão orientada por riscos. A pergunta passa a ser "como proteger de forma eficiente e proporcional?". E por que Guidance, e não "Gestão"? Porque gestão sempre houve — até o 3G mais rudimentar tem alguém administrando escalas e contratos. O que muda no 4G é a orientação: a análise de riscos passa a guiar onde, quanto e como empregar cada recurso de proteção. Guidance carrega esse sentido de direção — e mantém todos os Gs no idioma em que a expressão original nasceu.

ABNT NBR ISO 31000:2018 · ASIS ESRM

A base técnica do 4G

A base técnica é conhecida. A ABNT NBR ISO 31000:2018 estabelece que o propósito da gestão de riscos é a criação e a proteção de valor. A ASIS International levou essa lógica para o nosso campo com a diretriz de Enterprise Security Risk Management (ESRM), de 2019: identificar e priorizar ativos, identificar e priorizar riscos, tratá-los e melhorar sempre.

Proporcionalidade é a palavra-chave. Nem todo risco merece um vigilante armado; alguns pedem um procedimento, outros um controle de sistema, outros a decisão consciente de aceitá-los. Os recursos do 3G continuam lá, mas cada um precisa de uma justificativa. É o nível tático de maturidade.

Ainda falta uma peça. No caso da indústria, quem deveria decidir o que fazer com a fraude na expedição? O gestor de segurança?

Seção 3O 5G: Governance, ou Quem Decide e Assume o Risco

A tentação é responder que sim. Só que a segurança não tem autoridade para redesenhar o processo de conferência, segregar funções na logística ou responder pelos resultados da expedição. Quem tem é o dono do processo.

A ABNT ISO Guia 73 dá nome a essa figura: proprietário do risco, a pessoa ou entidade com a responsabilidade e a autoridade para gerenciar um risco. Antonio Celso Ribeiro Brasiliano resume o princípio em uma frase que deveria estar na parede de toda central de segurança: "o dono do processo é o dono do risco e de seus controles".

IIA · Modelo das Três Linhas (2026)

Quem é dono, quem apoia, quem avalia

O Modelo das Três Linhas do Instituto dos Auditores Internos (IIA), atualizado em 2026, organiza essa conversa. A gestão, primeira linha, "é dona dos riscos e os gerencia"; a segunda linha oferece conhecimento especializado, apoio, monitoramento e questionamento; a auditoria interna, terceira linha, entrega avaliação independente; e o órgão de governança define propósito e apetite a risco. O próprio IIA cita a segurança entre os conhecimentos típicos da segunda linha: ela orienta e alerta, mas não substitui a responsabilidade de quem gerencia o processo. Curiosamente, o modelo nasceu como "Três Linhas de Defesa" e abandonou essa palavra em 2020 — o mesmo percurso que proponho para a segurança: da defesa à governança.

O Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC (6ª edição, 2023) define governança como "um sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável". No 5G, a segurança participa desse sistema: propõe políticas, leva riscos à alta administração e presta contas com indicadores que fazem sentido para o negócio — não apenas com estatísticas de ocorrências.

É o nível estratégico e executivo, aquele que a norma ANSI/ASIS CSO.1 descreve ao tratar do executivo de segurança como parte da liderança da organização. Sennewald registra essa ascensão com uma imagem forte: a função de segurança saiu dos porões das empresas e chegou aos andares executivos. A pergunta da quinta geração é: quem decide, quem assume o risco — e para quê?

No 5G, o gestor de segurança não é o dono de todos os riscos. É quem garante que nenhum risco relevante fique sem dono.

Seção 4Por Que Agora: a Lei Descreveu o 4G e o 5G

Lei nº 14.967/2024 · Art. 26, I

O gestor de segurança privada

A Lei nº 14.967/2024, o Estatuto da Segurança Privada, criou no art. 26, inciso I, a figura do gestor de segurança privada: profissional especializado, de nível superior, responsável pela "análise de riscos e definição e integração dos recursos físicos, humanos, técnicos e organizacionais", pela "elaboração dos projetos para a implementação das estratégias de proteção" e pela "realização de auditorias de segurança em organizações públicas e privadas".

Leia de novo, com calma. A lei não pede ao gestor que comande mais vigilantes. Pede análise de riscos, projeto e auditoria — a passagem do 3G para o 4G, com um pé firme no 5G, porque auditoria só faz sentido quando alguém, acima da operação, precisa saber se os controles funcionam.

A regulamentação foi na mesma direção. O Decreto nº 13.012/2026 (art. 2º, VI) define o projeto de segurança como documentação elaborada pelo gestor, com a análise de riscos e a definição e integração dos recursos de proteção — os recursos do 3G passam a ser consequência da análise, e não ponto de partida. A Instrução Normativa DG/PF nº 340/2026 disciplinou os procedimentos de autorização, controle e fiscalização. E a Portaria nº 23/2026-CGCSP/DPA/PF fixou os requisitos para o registro do gestor, entre eles um curso de complementação de 150 horas-aula, com disciplinas de Análise de Riscos, Projetos de Segurança e Auditorias.

Para os contratantes — diretoria, RH, facilities, jurídico —, a mensagem é igualmente clara. Contratar segurança deixa de ser comprar postos e passa a ser tomar decisões sobre riscos. O IIA lembra que a terceirização não muda a responsabilidade da alta governança por garantir que a atividade seja eficaz. Em outras palavras: é possível terceirizar o vigilante; não é possível terceirizar o risco.

Seção 5Quadro-Síntese: Do 3G ao 5G

3GOperacional

Guards · Gates · Guns

Vigilantes, barreiras físicas e eletrônicas (inclui tecnologia) e armamento
Com o que protegemos?
4GTático

+ Guidance

Gestão orientada por riscos
Como proteger de forma eficiente e proporcional?
5GEstratégico / Executivo

+ Governance

Dono do risco, decisão e alinhamento aos objetivos
Quem decide e assume o risco, e para quê?

Há uma diferença essencial em relação à telefonia. Quando o 5G chegou aos celulares, ninguém deixou de fazer ligações. Na segurança é igual: as gerações são cumulativas. O 5G não descarta guardas, barreiras e armas — coloca esses recursos sob análise de riscos (4G) e sob governança (5G).

O 3G protege. O 4G escolhe. O 5G decide.

Seção 6Autodiagnóstico: em Que Geração Está a Sua Segurança?

Responda apenas "sim" ou "não":

  1. A segurança da sua organização tem um inventário atualizado dos ativos críticos que precisa proteger — pessoas, informações, processos e bens?
  2. Os investimentos em vigilância e tecnologia dos últimos dois anos foram justificados por uma análise de riscos documentada, e não apenas pelo último incidente?
  3. Existe uma matriz de riscos revisada ao menos uma vez por ano, com critérios claros de probabilidade e impacto?
  4. Cada risco relevante tem um dono formalmente designado, com autoridade para decidir o seu tratamento?
  5. A alta administração recebe relatórios periódicos sobre riscos de segurança, com indicadores ligados aos objetivos do negócio?
  6. A segurança passa por auditorias ou avaliações independentes, e os resultados chegam à diretoria ou ao conselho?
Perguntas 1–3: passagem do 3G para o 4GPerguntas 4–6: passagem para o 5G

Como interpretar

Se as perguntas 1 a 3 receberam "não", sua segurança ainda opera no 3G. Se foram "sim", mas as perguntas 4 a 6 não, você está no 4G — já protege com critério, mas a decisão ainda não encontrou o seu lugar. Seis respostas positivas indicam o 5G. Não há demérito em estar no 3G; ele é a base de tudo. O risco está em acreditar que ele basta.

A evolução do 3G ao 5G não é uma troca de equipamentos. É uma troca de perguntas. Quem continua perguntando apenas "com o quê?" estará sempre um passo atrás do próximo incidente. Quem aprende a perguntar "como?" e "quem decide, e para quê?" transforma a segurança em parte da estratégia — exatamente o que o novo marco legal passou a esperar do gestor.

Este modelo é um dos pilares do meu próximo livro, Bússola do Gestor de Segurança, que será lançado em breve, com ferramentas e caminhos práticos para conduzir essa transição.

Se você quer saber em que geração está a segurança da sua empresa, a Security & Training pode ajudar com diagnósticos de maturidade, análises de riscos, projetos de segurança e auditorias — justamente as atribuições que a lei confiou ao gestor. Fale conosco pelo WhatsApp.

Em que geração está
a segurança da sua empresa?

A Security & Training realiza diagnósticos de maturidade, análises de riscos, projetos de segurança e auditorias — as atribuições que o novo marco legal confiou ao gestor de segurança privada.

Referências Bibliográficas

Legislação e normas regulatórias

BRASIL. Lei nº 7.102, de 20 de junho de 1983.
BRASIL. Lei nº 14.967, de 9 de setembro de 2024. Institui o Estatuto da Segurança Privada e da Segurança das Instituições Financeiras.
BRASIL. Decreto nº 13.012, de 9 de junho de 2026. Regulamenta a Lei nº 14.967/2024.
POLÍCIA FEDERAL. Instrução Normativa DG/PF nº 340, de 31 de julho de 2026 (DOU de 04/08/2026).
POLÍCIA FEDERAL. Portaria nº 23-CGCSP/DPA/PF, de 10 de junho de 2026. Dispõe sobre o procedimento para o registro do gestor de segurança privada e a emissão da carteira nacional de gestor de segurança privada.

Normas técnicas e referenciais

ABNT. NBR ISO 31000:2018 — Gestão de riscos: diretrizes.
ABNT. ISO Guia 73:2009 — Gestão de riscos: vocabulário.
ASIS INTERNATIONAL. Enterprise Security Risk Management Guideline (ESRM), 2019.
ANSI/ASIS. CSO.1 — Chief Security Officer: An Organizational Model.
IIA. The IIA's Three Lines Model: An Update of the Three Lines of Defense. Lake Mary: IIA, 2020.
IIA. Three Lines Model – Assurance and Advice in Support of Effective Governance (Statement of Position). Lake Mary: IIA, 2026.
IBGC. Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. 6. ed. São Paulo: IBGC, 2023.

Referências bibliográficas e dados

BRASILIANO, Antonio Celso Ribeiro. Inteligência em Riscos: gestão integrada em riscos corporativos. São Paulo: Sicurezza, 2016.
SENNEWALD, Charles A. Effective Security Management. 5. ed. Burlington: Butterworth-Heinemann/Elsevier, 2011.
MARQUES, Luciano. Gestão de Riscos. 2024.
RITCHEY, Diane. The Security Leader: Beyond Guns, Guards and Gates. Security Magazine, 1 jun. 2012.
BRISCOE, Scott. A Security Transformation. Security Management (ASIS International), 23 set. 2020.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, 2026.
SECURITY EXECUTIVE COUNCIL. Evolving from 3G to 5D. Disponível em: securityexecutivecouncil.com.